Na política contemporânea é condição sine qua non, entre outras coisas, que os atores que representam a instância política joguem com as estratégias discursivas com a finalidade maior de construir o consenso. Par aisso, em grande medida buscam parecer dizer a verdade, conforme assinala Patrick Charaudeau. O debate em torno da manutenção ou não da criminalização do aborto na sociedade brasileira, travado entre os candidatos Dilma Rousseff e José Serra, com o auxílio dos meios de comunicação, é um exemplo bastante emblemático desta questão.
As discussões relativas ao aborto e outras polêmicas se inserem em debates maiores sobre as inúmeras mazelas que acometem a vida societária brasileira. O debate sobre criminalização ou não do aborto passa, sobretudo, por questões inerentes ao acesso à educação, à saúde, às condições dignas de sobreviência dos milhões de cidadãos e cidadãs deste país e, portanto, não deve ser colocado de maneira marginal, como vem sendo feito pelos candidatos à Presidência da República e fomentado pelos meios de comunicação.
Dilma Rousseff e José Serra, ao pleitearem o cargo de dirigente máximo da nação brasileira necessitam discutir amplamente com a sociedade os pontos que consideram cruciais e que deveriam constar dos seus respectivos programas de governo, submetendo-os à apreciação da sociedade brasileira, particularmente do eleitorado, abandonando os recursos de simulação e espetacularização que apenas contribuem para banalizar um processo tão sério quanto o de escolha de um(a) dirigente de Estado.
Os jornalistas, por sua vez, deveriam fazer valer o papel social que lhes cabe, suscitando a discussão dessas questões mais amplas e, dessa forma, oportunizando à sociedade refletir acerca das proposições de cada um dos candidatos, para assim nortear a sua escolha. Ao contrário, contribuem significativamente para o esvaziamento de discussões relevantes e realizam aquilo que Gilles Lipovetsky diz quando afirma que, “adotando um formato espetacular, o discurso político se torna menos pesado e aqueles que não se interessam por ele podem encontrar algum interesse, ainda que seja no político, alimentado, entre outras coisas, pelo ‘show do homem na arena’”. Lamentável!!!!
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