Horário eleitoral gratuito: a retórica e o “show do homem na arena”
A despeito da importância e inegável potencial da comunicação de massa na sociedade contemporânea, sua utilização nos processos eleitorais pode ser considerada (com raras exceções) incipiente, pois a quase totalidade da ênfase é dada aos processos de fabricação de imagens e de discursos que, em última instância, são apresentados como produtos a serem consumidos pelo(a)s eleitore(a)s/consumidore(a)s. O horário gratuito de propaganda eleitoral é um exemplo.
Esta constatação nos força a refletir, de modo pessimista, sobre a função que atualmente exercem os meios de comunicação nesses processos eleitorais. Isto porque as discussões importantes em torno das propostas que deveriam ser estruturadas pelo(a)s candidato(a)s - tanto aos cargos legislativos como também aos executivos - perdem lugar para a exposição exacerbada de imagens/discursos pré-fabricados pois, como bem afirma Charaudeau (2005), “é preciso que o político saiba inspirar confiança, admiração, isto é, que saiba aderir à imagem ideal do chefe que se encontra no imaginário coletivo dos sentimentos e das emoções” (p. 81).
Charaudeau nos adverte ainda que o discurso político não se pauta mais pelo conteúdo das ideias, mas pela simulação. O também teórico francês Gilles Lipovetsky (1990) complementa esse pensamento quando diz que o discurso político, ao ser construído de forma espetacular, torna-se menos enfadonho e, em consequência, aqueles que não se interessam por ele podem encontrar algum interesse - mesmo que seja no político alimentado, entre outras coisas, pelo que ele denominou de o “show do homem na arena”.
Considerando essas assertivas devemos atentar para o fato de que, na contemporaneidade, o espetáculo assumiu tal protagonismo que se torna imprescindível analisar as questões referentes ao campo político levando em conta essa característica. E para dar conta do simulacro muitas vezes os discursos políticos são apresentados cheios de recursos espetaculares, colocando em evidência a lógica dos meios de comunicação e também a lógica da publicidade.
Modos de dizer e de seduzir
Nesta reflexão, vejamos dois exemplos a partir de discursos veiculados em programas de José Serra (PSDB) e de Dilma Rousseff (PT), candidatos à Presidência da República nas eleições 2010, ambos referentes à temática saúde pública.
Em um dos seus programas o candidato “tucano” José Serra coloca em evidência uma suposta cidadã que venceu o câncer de mama por conta do tratamento dispensado por um hospital público, revelando, assim, conforme a propaganda do PSDB, o compromisso deste partido e do seu candidato com a saúde pública. As palavras e a ênfase dadas à imagem da referida cidadã/eleitora não fazem mais do que construir um cenário espetacular no qual, conforme a afirmação de Gomes, a retórica serve para persuadir e a poética para produzir emoção. Quantas pessoas/eleitore(a)s não se emocionam com aquela cena? Todavia, por outro lado, a história de êxito que ilustra a propaganda peessedebista contrasta com inúmeras histórias cotidianas contadas através dos próprios meios de comunicação que mostram, em todo o País, tragédias vividas por cidadãos e cidadãs ao buscarem atendimento na rede pública de saúde.
É bom lembrar que candidato Serra foi titular do Ministério da Saúde e o seu partido, o PSDB, governou por dois mandatos consecutivos. Mas o “tucano” prefere produzir um discurso espetacular em vez de explicitar para o(a) eleitor(a)/espectador(a) quais as estratégias que pretende utilizar para dotar o Brasil da infraestrutura em saúde pública de que o país necessita. No referido programa, toda a ênfase é dada ao caso da ex-paciente e à sua cura.
A candidata petista Dilma Rousseff também tomou a saúde como prioridade (para os seus discursos). Em um dos programas produzidos para sua campanha na Bahia, Rousseff enfatiza a construção do Hospital Estadual da Criança no município de Feira de Santana, local onde esteve presente e conversou com médicos sobre a importância da obra. É interessante salientar, no entanto que, embora muito pertinente, a construção de um único hospital infantil em um estado com 417 municípios pouco representa se levamos em conta as reais necessidades da população baiana, hoje estimada em aproximadamente 14 milhões de habitantes, sobretudo considerando os quase oito anos de mandato petista junto ao governo federal, somados a quase quatro no governo do estado. O programa dá saliência, também, às falas de supostos moradores da cidade sobre a satisfação em receber a referida obra. Em seu discurso, Rousseff ressalta que irá investir consideravelmente na saúde pública, coincidindo com o discurso do candidato adversário. Mas, da mesma forma, minimiza a principal discussão: suas estratégias para concretizar a promessa.
É interessante frisar que no discurso a candidata petista “defende”, enfaticamente, o Sistema Único de Saúde (SUS) - e isso é constatável no referido programa -, embora seu tratamento contra o câncer não seja realizado em um hospital do SUS, mas em uma das instituições hospitalares mais luxuosas e caras do País.
A retórica era tão importante na Grécia que os filósofos sofistas transformaram a educação dos meninos gregos na arte ou técnica de ensinar a falar bem, de construir discursos persuasivos. Na Roma Antiga também não foi diferente. As escolas de retórica se proliferaram e estavam comprometidas, principalmente, com a preparação de rapazes para a vida pública. E na atualidade a retórica não assume importância menor, principalmente com o auxílio dos meios de comunicação e dos aparatos que os constituem. Em se tratando de discursos políticos seu valor se torna ainda maior, pois, para persuadir os receptores, aqueles que constroem os discursos políticos necessitam captar seu imaginário, construir inúmeras cenografias, etc..
Considerando os aspectos desta reflexão, pode-se inferir que a comunicação midiática deve ser analisada a partir de um processo de questionamento particular e constante, qual seja o do estatuto do sujeito nos variados espaços que ele possa ocupar - seja como produtor, como ator, como receptor ou mesmo como produtor/receptor. Portanto, torna-se imprescindível, conforme adverte Pinto, desvendar os modos de dizer, os modos de interagir e os modos de seduzir.