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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Estou cansada

Hoje recebi mensagem enviada por um colega de trabalho, que me inspirou a escrever o texto a seguir.

Estou cansada dos discursos sofistas; estou cansada de governos cuja meta é satisfazer a avidez de lucro por parte dos banqueiros; estou cansada da hipocrisia de governos que constroem universidades mas não investem na educação básica; estou cansada da sede voraz pelo poder, da corrupção; estou cansada de um país cujo povo se vangloria de poder ir ao shopping center, de adquirir aparelhos celulares, computadores, carros, mas que não luta por uma educação de qualidade; estou cansada de pagar pela gasolina mais cara do mundo em um país autosuficiente em petróleo; estou cansada de viver num país em guerra (não declarada), como se tudo estivesse às mil maravilhas; estou cansada de uma sociedade cujo sistema de saúde é tão precário que se morre tanto por falta de UTI como também por falta de atendimento básico; estou cansada de ouvir candidato(a)s sem clareza programática ou com propostas absurdas; estou cansada de eleitore(a)s fundamentalistas que não conseguem enxergar um palmo adiante do próprio nariz; estou cansada de uma falsa democracia que nos obriga a votar (ainda que seja nulo ou branco).

Mas, confesso, não estou cansada de viver, de lutar por dias melhores, de dar o melhor de mim na profissão que escolhi, de contribuir para que algum dia este país e o mundo em que vivemos sejam, de fato, para todo(a)s.

Estou cansada, sim, de PSDBs, de PTs e de partidos políticos cujos objetivos são meramente fisiológicos.

Mas eu estou cansada mesmo é de de ser um(a) do(a)s pouco(a)s que se cansam.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pesquisas eleitorais, mediações e produção de sentido

Embora os estudos de comunicação estejam avançando a cada dia, muitos ainda teimam em se pautar nas reflexões tradicionais que buscam analisar os processos comunicativos a partir do tripé emissor/meio/receptor, que colocam o primeiro e o terceiro componentes como fixador de hegemonia e vulnerável à manipulação, respectivamente. Neste sentido, considerando as pesquisas eleitorais divulgadas nas campanhas para presidente e governadores aqui no Brasil, o lógico seria pensar que estas serão confirmadas, uma vez que a tendência é de que o eleitorado se deixe inclinar por essas sondagens.

Afortunadamente, as abordagens mais atuais que pretendem compreender essa complexa relação entre comunicação e sociedade buscam refletir os processos comunicativos como resultantes de uma complexidade a partir da qual emissor e receptor se relacionam; um processo onde a produção dos sentidos das mensagens disseminadas se dá a partir e através dessa interação, principalmente considerando estruturas que formam as subjetividades dos indivíduos.

Considera-se que essa produção está permeada pelas práticas sociais e culturais (incluídas aí as instâncias coletivas, indididuais e institucionais)responsáveis por estruturar componentes de significações nos sujeitos através da educação, da família, da religião, do meio ambiente e também da mídia, entre outros.

Sendo assim, os resultados das pesquisas eleitorais amplamente divulgados pelos meios de comunicação à sociedade/eleitora no processo de disputa entre o(a)s candidato(a)s não devem ser encarados como o elemento estratégio capaz de determinar os resultados das eleições porque apontam a vitória de determinadas candidaturas.

Nesse processo complexo de medidação estão incluídas muitas variáveis, que podem atuar como fixadoras dessa tendência ou, pelo contrário, reveladoras de uma visão antagônica. O pleito para governo da Bahia, em 2006, foi uma demonstração de que pesquisas não determinam resultados. O candidato sagrado vitorioso, no primeiro turno, não foi o mesmo apontado pelas pesquisas de opinião amplamente divulgadas pela mídia.

Portanto, até que as urnas revelem o(a)s candidato(a)s vencedore(a)s dos pleitos, nenhuma candidatura tem a vitória assegurada. O(a)s eleitore(a)s não se baseiam unicamente na mídia para decidir em quem votarão. Há uma gama de elementos que permeiam esse processo de escolha.

Eleições e voto não são sinônimos de democracia

John Dewey afirma que as ideias de democracia não são exatamente a democracia e que, encarada como ideia, a democracia não é uma alternativa a outros princípios de vida associativa; ela (a democracia) é a própria ideia de vida em comunidade.

Essa afirmação nos sugere que teremos regimes democráticos questionáveis, nos quais não há a possibilidade de exercício das liberdades em sua plenitude. Isso é verificável, sem esforço, em várias sociedades contemporâneas, inclusive no Brasil.

Pois bem. Dito isso, como é possível falar de democracia (no seu sentido pleno) em sociedades nas quais se registra o analfabetismo, por exemplo? Como qualificar de democrático um país cujos meios de comunicação estejam concentrados em poucas mãos, produzindo conteúdos que não reflitam a diversidade cultural, social etc? Ou, ainda, como dizer que é democrática uma sociedade na qual crianças são obrigadas a trabalhar para garantir o mínimo de subsistência?

Norberto Bobbio ressalta, entre outras coisas, que a democracia promete defender o interesse público mas, em geral, negocia acordos com os interesses privados, demonstrando uma grande contradição; que promete acabar com os privilégios dos grupos hegemônicos, aplicando o princípio da igualdade, mas as oligarquias continuam existindo… Se observarmos atentamente, vamos verificar essas características em nossos regimes ditos democráticos.

E como deveria ser a democracia?

Provavelmente como uma construção permanente, como um jogo de disputas, de forças, de poder conforme a visão foucaultiana pois, o regime democrático, ainda que amplie significamente a participação, não garante uma participação efetiva e ilimitada.
Esta, pressupõe que os indivíduos socialmente organizados primeiramente tenham asseguradas, de fato, as mesmas condições. E , na prática, em muitos Estados ditos democráticos – inclusive no Brasil – essas condições existem apenas do ponto de vista teórico (estão estabelecidas pela Constituição, mas na prática não se fazem reais).

Basta vermos as sociedade onde milhões de pessoas estão desprovidas das mínimas condições de alimentação, de habitação, de saneamento, de educação, entre outras. Nestas sociedades, os indivíduos ficam vulneráveis e, por conseguinte, praticamente “impedidos” de pensar em algo que não seja a satisfação de suas necessidades imediatas. Como é o caso do Brasil.

Analisando a democracia a partir desta perspectiva, é preciso compreender que as eleições (e o voto)-, ainda que sejam instrumentos de poder da sociedade civil e, ao mesmo tempo, a possibilidade ampliada de participação cidadã -, não asseguram e nem garantem as realizações dos projetos de interesse da cidadania.

Isto porque a participação cidadã requer uma continuidade, um acompanhamento efetivo, cotidiano das ações dos representantes políticos. A política não começa e nem termina nos processos eleitorais. Não menos importante que as eleições é o exercício de governo ou da atividade parlamentar.

Portanto, para expressar o poder que o processo democrático teoricamente lhe confere, a sociedade civil necessita participar permanentemente; deve, efetivamente, exercer o seu papel de ator social da política. Caso contrário, a democracia tenderá a ser – sempre – incipiente, parcial e restrita.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Décimo terceiro do Bolsa Família: o desespero de Serra na corrida eleitoral

O candidato "tucano" à Presidência da República, José Serra, parece estar mesmo desesperado com sua perfomance no processo eleitoral. Afirmo isto porque, ao prometer criar o 13º para o(a)s beneficiário(a)s do Bolsa Família, ou ele está totalmente apanhado pelo desespero, ou então está contando uma grande piada ao povo brasileiro.

É certo que a distribuição de esmolas tem dado certo, tem formado um capital eleitoral sem precedentes. Mas, irresponsabilidade e populismo devem ter limites! Aliás, os limites serão dados oportunamente, quando as condições macroeconômicas do País não permitirem mais essa tal "transferência de renda" (que é como o presdiente Lula e seus correligionários intitulam a institucionalização da esmola pelo governo). A Espanha, por exemplo, que durante muito tempo teve o importante suporte da União Europeia para se adequar aos mínimos padrões exigidos pelos sócios, em consequência da crise econômica mundial já está cortando certos benefícios sociais (que não se comparam ao Bolsa Esmola), o que tem abalado a popularidade do seu presidente de governo José Luis Rodríguez Zapatero.

Voltando ao 13º do Bolsa Família, não dá para não criticar esta infeliz proposta do candidato "tucano". É preciso levar a política à sério. E isso só se faz, entre outras coisas, implementando e consolidando políticas públicas eficazes que possam garantir emprego, renda e, portanto, dignidade para a cidadania. O contrário do que faz o Bolsa Família, que tem gerado uma cultura perigosa e maléfica na sociedade brasileira: não é preciso ter emprego de qualidade, basta votar no(a)s candidato(a)s que manterão o programa da esmola.

Sou defensora da transferência de renda no Brasil. Aliás, o governo deveria começar criando medidas para diminuir os juros do mercado financeiro (dos bancos em particular). Isto feito, sobrariam muitos recursos para a criação de programas sólidos, consistentes de transferência de renda, com a geração de empregos (não temporários, sazonais, como vemos acontecer na economia brasileira), de postos fixos de trabalho que garantam o pagamento de salários dignos, capazes de satisfazer as necessidades básicas de uma família.

Quando ouço Serra falando em criar o 13º do Bolsa Família, penso que não demorará muito a criação do salário férias e da aposentadoria ligados também ao mesmo programa. E o trabalho, a dignidade das pessoas, a auto-estima, como ficam?

O importante mesmo, pelo visto, é garantir os votos!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Horário eleitoral gratuito: a retórica e o “show do homem na arena”

A despeito da importância e inegável potencial da comunicação de massa na sociedade contemporânea, sua utilização nos processos eleitorais pode ser considerada (com raras exceções) incipiente, pois a quase totalidade da ênfase é dada aos processos de fabricação de imagens e de discursos que, em última instância, são apresentados como produtos a serem consumidos pelo(a)s eleitore(a)s/consumidore(a)s. O horário gratuito de propaganda eleitoral é um exemplo.

Esta constatação nos força a refletir, de modo pessimista, sobre a função que atualmente exercem os meios de comunicação nesses processos eleitorais. Isto porque as discussões importantes em torno das propostas que deveriam ser estruturadas pelo(a)s candidato(a)s - tanto aos cargos legislativos como também aos executivos - perdem lugar para a exposição exacerbada de imagens/discursos pré-fabricados pois, como bem afirma Charaudeau (2005), “é preciso que o político saiba inspirar confiança, admiração, isto é, que saiba aderir à imagem ideal do chefe que se encontra no imaginário coletivo dos sentimentos e das emoções” (p. 81).

Charaudeau nos adverte ainda que o discurso político não se pauta mais pelo conteúdo das ideias, mas pela simulação. O também teórico francês Gilles Lipovetsky (1990) complementa esse pensamento quando diz que o discurso político, ao ser construído de forma espetacular, torna-se menos enfadonho e, em consequência, aqueles que não se interessam por ele podem encontrar algum interesse - mesmo que seja no político alimentado, entre outras coisas, pelo que ele denominou de o “show do homem na arena”.

Considerando essas assertivas devemos atentar para o fato de que, na contemporaneidade, o espetáculo assumiu tal protagonismo que se torna imprescindível analisar as questões referentes ao campo político levando em conta essa característica. E para dar conta do simulacro muitas vezes os discursos políticos são apresentados cheios de recursos espetaculares, colocando em evidência a lógica dos meios de comunicação e também a lógica da publicidade.


Modos de dizer e de seduzir
Nesta reflexão, vejamos dois exemplos a partir de discursos veiculados em programas de José Serra (PSDB) e de Dilma Rousseff (PT), candidatos à Presidência da República nas eleições 2010, ambos referentes à temática saúde pública.

Em um dos seus programas o candidato “tucano” José Serra coloca em evidência uma suposta cidadã que venceu o câncer de mama por conta do tratamento dispensado por um hospital público, revelando, assim, conforme a propaganda do PSDB, o compromisso deste partido e do seu candidato com a saúde pública. As palavras e a ênfase dadas à imagem da referida cidadã/eleitora não fazem mais do que construir um cenário espetacular no qual, conforme a afirmação de Gomes, a retórica serve para persuadir e a poética para produzir emoção. Quantas pessoas/eleitore(a)s não se emocionam com aquela cena? Todavia, por outro lado, a história de êxito que ilustra a propaganda peessedebista contrasta com inúmeras histórias cotidianas contadas através dos próprios meios de comunicação que mostram, em todo o País, tragédias vividas por cidadãos e cidadãs ao buscarem atendimento na rede pública de saúde.

É bom lembrar que candidato Serra foi titular do Ministério da Saúde e o seu partido, o PSDB, governou por dois mandatos consecutivos. Mas o “tucano” prefere produzir um discurso espetacular em vez de explicitar para o(a) eleitor(a)/espectador(a) quais as estratégias que pretende utilizar para dotar o Brasil da infraestrutura em saúde pública de que o país necessita. No referido programa, toda a ênfase é dada ao caso da ex-paciente e à sua cura.

A candidata petista Dilma Rousseff também tomou a saúde como prioridade (para os seus discursos). Em um dos programas produzidos para sua campanha na Bahia, Rousseff enfatiza a construção do Hospital Estadual da Criança no município de Feira de Santana, local onde esteve presente e conversou com médicos sobre a importância da obra. É interessante salientar, no entanto que, embora muito pertinente, a construção de um único hospital infantil em um estado com 417 municípios pouco representa se levamos em conta as reais necessidades da população baiana, hoje estimada em aproximadamente 14 milhões de habitantes, sobretudo considerando os quase oito anos de mandato petista junto ao governo federal, somados a quase quatro no governo do estado. O programa dá saliência, também, às falas de supostos moradores da cidade sobre a satisfação em receber a referida obra. Em seu discurso, Rousseff ressalta que irá investir consideravelmente na saúde pública, coincidindo com o discurso do candidato adversário. Mas, da mesma forma, minimiza a principal discussão: suas estratégias para concretizar a promessa.

É interessante frisar que no discurso a candidata petista “defende”, enfaticamente, o Sistema Único de Saúde (SUS) - e isso é constatável no referido programa -, embora seu tratamento contra o câncer não seja realizado em um hospital do SUS, mas em uma das instituições hospitalares mais luxuosas e caras do País.

A retórica era tão importante na Grécia que os filósofos sofistas transformaram a educação dos meninos gregos na arte ou técnica de ensinar a falar bem, de construir discursos persuasivos. Na Roma Antiga também não foi diferente. As escolas de retórica se proliferaram e estavam comprometidas, principalmente, com a preparação de rapazes para a vida pública. E na atualidade a retórica não assume importância menor, principalmente com o auxílio dos meios de comunicação e dos aparatos que os constituem. Em se tratando de discursos políticos seu valor se torna ainda maior, pois, para persuadir os receptores, aqueles que constroem os discursos políticos necessitam captar seu imaginário, construir inúmeras cenografias, etc..

Considerando os aspectos desta reflexão, pode-se inferir que a comunicação midiática deve ser analisada a partir de um processo de questionamento particular e constante, qual seja o do estatuto do sujeito nos variados espaços que ele possa ocupar - seja como produtor, como ator, como receptor ou mesmo como produtor/receptor. Portanto, torna-se imprescindível, conforme adverte Pinto, desvendar os modos de dizer, os modos de interagir e os modos de seduzir.